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Paty Matieli diz que pretende jogar nas Olimpíadas de Los Angeles

A convocação para os treinamentos e amistosos da Seleção Brasileira Feminina de Handebol, na Suécia, marca o retorno de Paty Matieli após um longo processo de recuperação de uma lesão no ombro. Aos 37 anos, a central volta à equipe nacional motivada para contribuir dentro e fora das quadras, de olho nos próximos desafios do ciclo olímpico. Em entrevista, a atleta relembra o período afastada da Seleção, fala sobre a trajetória construída ao longo de uma década na Polônia, projeta a busca por uma terceira Olimpíada em Los Angeles 2028 e defende investimentos nas categorias de base como caminho para o Brasil disputar medalhas com mais regularidade.

Você está convocada para os treinamentos e amistosos na Suécia. Como chega a esse encontro com a Seleção, física e emocionalmente, depois da recuperação da lesão no ombro?
Chego muito feliz e grata por esse momento. Depois de um longo período de recuperação, já estou treinando normalmente e me sentindo bem fisicamente. Estar de volta com a Seleção tem um significado especial, e chego com muita vontade de aproveitar cada momento e contribuir com a equipe. 

A lesão deixou você fora do Mundial de 2025. Como foi receber aquela notícia e qual foi o momento mais difícil durante a recuperação?
Foi muito difícil, porque ninguém se prepara para ficar fora de uma competição tão importante, principalmente depois de todo o trabalho para estar ali. Acho que o mais difícil foi aceitar que naquele momento eu não tinha controle sobre o tempo e precisava respeitar meu corpo e o processo de recuperação. 

Nesse período, chegou a ter alguma dúvida sobre seu futuro na Seleção? O que ajudou você a seguir em frente?
Claro que em alguns momentos passam muitas coisas pela cabeça, principalmente quando você já está há tanto tempo no esporte. Mas eu sempre tive vontade de voltar bem e ainda sinto que tenho coisas para viver com a Seleção. Poder estar perto da minha família durante todo o processo de recuperação foi muito importante, assim como ter ao meu lado profissionais em quem confio. Isso me deu muita segurança durante esse período. E, além disso, ainda tenho muitos objetivos dentro do esporte.

O Brasil vive um processo de renovação. Como você enxerga seu papel nessa equipe e o que Cristiano Rocha espera de você neste ciclo?
Acho que hoje meu papel vai além do que eu faço dentro de quadra. Tenho experiência e posso ajudar as jogadoras mais novas em vários momentos. Mas também quero continuar sendo importante dentro de quadra, assumindo responsabilidades e ajudando a equipe sempre que for preciso. Penso que o Cristiano espera isso de mim: experiência, liderança e também aquilo que posso entregar como atleta.

Olhando para a Seleção de hoje, o que ainda precisamos desenvolver para disputar medalhas mundiais e olímpicas com regularidade?
Temos talento e muitas jogadoras de qualidade, e acho que já mostramos em alguns momentos que conseguimos competir com as grandes seleções. Ao mesmo tempo, ainda existe uma diferença de estrutura e investimento em relação a alguns países que estão há muitos anos entre os melhores. Depois de tantos anos jogando fora do Brasil e convivendo com outras realidades, percebo que muitas dessas seleções são fortes porque existe um trabalho muito consistente desde as categorias de formação. Acho que esse é um ponto que precisamos desenvolver e ao qual precisamos dar cada vez mais atenção no Brasil.

Você disputou Tóquio e Paris. Buscar uma terceira Olimpíada, em Los Angeles 2028, está nos seus planos?
Sim. Los Angeles está nos meus planos. Sei que ainda existe um longo caminho até 2028 e prefiro pensar etapa por etapa, mas disputar uma terceira Olimpíada seria algo muito especial. É uma motivação muito grande para continuar me cuidando, treinando e buscando o meu melhor.

Você está perto de completar 38 anos. Em quais aspectos se considera uma jogadora melhor hoje do que há dez anos?

Hoje tenho muito mais maturidade e experiência dentro do jogo. Consigo entender melhor os momentos da partida, controlar minhas emoções e tomar decisões de forma mais consciente. Para mim, idade é só um número. A cada ano sinto que consigo estar fisicamente melhor e hoje também temos muito mais recursos e tecnologia à disposição do que há dez anos, seja na parte física, técnica ou mental. Acho que saber usar tudo isso a meu favor tem sido muito importante para a minha longevidade no esporte. 

Sua trajetória na Polônia já completa uma década, com títulos e reconhecimento individual. O que encontrou lá que fez você construir uma parte tão longa da carreira no país?
Encontrei estabilidade, confiança no meu trabalho e um clube que me deu condições de crescer e competir por títulos todos os anos. Além disso, a Polônia me recebeu muito bem e sempre me senti confortável aqui. São muitos anos, muitas pessoas e muitas histórias, então hoje tenho uma relação muito forte com o clube e com o país. Depois de tanto tempo, considero a Polônia a minha segunda casa.

Em 2024, você recebeu pela quinta vez o prêmio de melhor central da liga polonesa. Sente que o público brasileiro conhece suas conquistas? O que gostaria que as pessoas soubessem sobre sua carreira?
Talvez nem todo mundo no Brasil acompanhe tanto o handebol polonês e conheça tudo o que construí aqui, mas tenho muito orgulho da minha trajetória. Além dos prêmios individuais, foram sete títulos da Liga Polonesa, oito Copas da Polônia e muitos anos jogando em alto nível. Mais do que as conquistas, gostaria que as pessoas soubessem tudo o que existiu por trás delas: dedicação, trabalho, constância, renúncias e muito apoio da minha família. E, principalmente, que, apesar de todas as dificuldades, eu faria tudo novamente.

Voltando ao começo: você conheceu o handebol na escola, por um convite da sua prima. Em que momento percebeu que aquele esporte poderia se tornar sua profissão? Quem foi decisivo nesse caminho?
No começo era simplesmente algo que eu gostava de fazer. Acho que fui entendendo aos poucos que o handebol poderia se tornar muito mais quando começaram a aparecer as oportunidades. Mas, sinceramente, só percebi que aquilo poderia realmente virar minha profissão quando saí do Rio de Janeiro para jogar em São Paulo e recebi meu primeiro salário. A partir dali, comecei a enxergar um futuro no esporte e a me dedicar ainda mais.

Minha família sempre me apoiou, mesmo sem saber até onde o esporte poderia me levar. Mas uma pessoa que foi muito importante nesse começo foi meu professor Flávio Abílio, do Colégio Apollo 12, no Rio de Janeiro. Ele acreditou no meu potencial mesmo antes de eu enxergar isso em mim.

O handebol também abriu uma oportunidade de bolsa de estudos. Que diferença isso fez na sua vida e na vida da sua família?
Fez muita diferença. Para os meus pais, a educação sempre foi muito importante, e uma das primeiras oportunidades que o handebol me trouxe foi justamente uma bolsa de estudos, algo que eles não teriam condições de bancar naquele momento. Então, além do esporte, o handebol também estava me dando uma formação e a possibilidade de construir um caminho mesmo que a carreira como atleta não desse certo. Para a minha família, isso teve um valor enorme e mostrou que o handebol podia transformar a minha vida e abrir caminhos que iam muito além da quadra.

Sua camisa 49 homenageia sua mãe, que sobreviveu a um infarto nessa idade. Como você viveu aquele episódio e o que esse número representa quando entra em quadra hoje?

Foi um momento muito difícil para toda a nossa família. Minha mãe tinha 49 anos na época, era muito jovem para passar por um infarto tão sério, então aquilo mexeu muito comigo e mudou a maneira como eu enxergava algumas coisas. Escolhi o 49 como uma forma de homenageá-la, de levar minha mãe comigo dentro de quadra e também de lembrar da força que ela teve naquele momento e da importância que a minha família tem na minha vida.

Viver tantos anos fora do Brasil envolve escolhas pessoais. Do que você mais sente falta e qual foi a decisão mais difícil que precisou tomar para seguir sua carreira?

Sem dúvida, sinto muita falta do clima que só o Brasil tem, tanto do calor quanto da energia. Mas o que mais pesa é a distância da família e das pessoas que amo. Quem escolhe construir uma carreira fora aprende a conviver com isso e acaba perdendo muitos momentos importantes. Acho que essa é uma das partes mais difíceis da profissão. Ao mesmo tempo, seguir minha carreira longe da família foi uma escolha necessária para construir tudo que tenho hoje.

Quem é a Paty fora das quadras? O que gosta de fazer e quais sonhos pessoais ainda quer realizar?
Sou uma pessoa bastante tranquila e gosto muito de estar com minha família e amigos, viajar, ler, assistir séries e estudar assuntos ligados ao comportamento humano. Também já comecei a me preparar para o momento de transição da carreira e tenho estudado bastante sobre treinamento mental no esporte.

Ainda tenho muitos sonhos para realizar. Como atleta, quero conquistar uma medalha olímpica ou mundial com a Seleção Brasileira e continuar buscando títulos aqui na Polônia. E, pensando no futuro, quero continuar ligada ao esporte e construir uma nova carreira que também seja significativa para mim, usando tudo o que aprendi ao longo do caminho para ajudar outros atletas no seu desenvolvimento e evolução.

Depois de tudo o que já conquistou, o que ainda faz você querer treinar, competir e vestir a camisa do Brasil? Qual capítulo ainda falta escrever nessa história?
Ainda tenho essa vontade de competir e de me desafiar. Enquanto eu sentir prazer em treinar, entrar em quadra e representar o Brasil, isso vai continuar me motivando. Já vivi momentos muito especiais no handebol, mas ainda tenho objetivos importantes. Estar em Los Angeles em 2028 é um deles, e conquistar uma medalha mundial ou olímpica com a Seleção Brasileira seria, sem dúvida, um dos capítulos mais especiais que ainda quero escrever nessa história.

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